
Tem coisa que a gente só percebe que estava faltando depois que aparece. Quando o anime de My Hero Academia bateu o martelo na temporada final, lá em 2025, ficou aquela sensação meio agridoce. O combate decisivo aconteceu, o vilão caiu, a fumaça baixou — e mesmo assim algo soou apressado. Quem acompanhou o mangá sabia o motivo: faltava o Capítulo 431, aquele bônus que Kohei Horikoshi soltou meses depois do fim oficial, mostrando o que aconteceu com Deku e a turma anos depois da poeira assentar. E é exatamente esse pedaço que o anime vai finalmente adaptar.
Em 2 de maio de 2026, a franquia coloca o ponto final que ela merecia ter colocado de cara. O episódio se chama “More”, carrega o número 170+1 — uma sacada simbólica deliciosa, como se dissesse “isso aqui é um extra que sempre fez parte do todo” — e dá um salto de oito anos para reencontrar Deku, Bakugo, Uraraka e o resto da Classe 1-A já adultos. Para quem cresceu vendo esses personagens correrem pelos corredores da U.A., a promessa é forte. Talvez forte demais.
O que é o “More” e por que ele importa tanto
Vale entender o tamanho do que está em jogo. O Episódio 170+1 não é uma OVA bobinha pendurada no fim do catálogo. Ele adapta o Capítulo 431 do mangá, aquele bônus extra que Horikoshi lançou junto com o Volume 42, o último da obra, publicado no Japão em dezembro de 2024. Ou seja: o autor escreveu esse capítulo depois de já ter encerrado a série na Weekly Shonen Jump, e fez isso por um motivo específico. Ele queria mostrar não só a vitória, mas a paz. A diferença entre essas duas coisas é enorme.
A maior parte dos finais de shounen para de filmar exatamente no momento em que o herói vence. O grito catártico, o sol nascendo, o vilão derrotado, créditos. Funciona, claro, mas costuma deixar uma fome estranha no espectador. A gente passou anos com aquela galera, viu cada queda, cada treino, cada amizade improvável se formando. E aí o final só mostra o último golpe? Horikoshi sentiu isso e voltou ao caderno. Escreveu um epílogo que pula direto para oito anos depois da Guerra Final, com adultos vivendo as consequências reais de tudo o que passaram.
Pelo que se sabe, o episódio “expande a história para além do episódio final original do anime”, segundo o material divulgado pelo próprio comitê de produção. Não é continuação no sentido de abrir novos arcos. É fechamento. É reencontro. É aquele tipo de capítulo que você assiste já sabendo que vai marejar os olhos em algum momento, mesmo se for um cara durão que diz não chorar com anime.
Por que esse epílogo gera tanta polêmica entre os fãs
Aqui mora um detalhe interessante, daqueles que dividem fórum até hoje. Quando o Volume 42 saiu no Japão e os leitores finalmente puseram a mão no Capítulo 431, a recepção foi, digamos, esquentada. Boa parte do fandom abraçou o epílogo como o complemento perfeito que faltava. Outra parte considerável reclamou bastante, especialmente sobre o destino reservado ao Deku.
Não vou estragar para quem ainda não leu, mas dá para falar em termos amplos: o caminho que o protagonista trilha depois da guerra é, para alguns, lógico e tocante; para outros, uma escolha narrativa que não combinaria com tudo que foi construído nas oito temporadas anteriores. É um daqueles debates clássicos onde o autor toma uma decisão clara e o público se divide entre “achei lindo” e “preferia outra coisa”. Difícil ficar em cima do muro nesse tipo de discussão.
A boa notícia para quem ficou frustrado com o capítulo é que assistir animado pode mudar a experiência. Tem leitor que passa raiva na página e amolece quando vê a cena com música, voz dos dubladores, ritmo de animação. Acontece muito. A trilha sonora do anime sempre soube puxar emoção dos momentos certos, e vendo trecho do trailer já dá pra apostar que a equipe vai caprichar nesse aspecto. Outros fãs, claro, podem assistir e simplesmente confirmar o que pensaram da primeira vez. Faz parte.
A estratégia da Bones e do estúdio Toho com o lançamento
Tem algo a se notar no jeito como tudo isso foi orquestrado. O anúncio do “More” rolou ainda durante a exibição da Temporada 8, no fim de 2025. Depois, na Jump Festa 2026, os detalhes foram apertados: data, tema, ligação direta com o décimo aniversário do anime, que começou a ser celebrado oficialmente em 3 de abril deste ano — exatamente uma década desde a primeira transmissão.
O timing é caprichado. Em vez de soltar o epílogo logo no fim da última temporada, o que seria a escolha óbvia, a produção esperou. Deixou a galera processar o final, sentir falta, conversar nas redes sociais, fazer aquela cobrança meio orgânica que é puro combustível para um relançamento. Quando a poeira baixou, mandaram o trailer, lançaram o key visual ilustrado por Yoshihiko Umakoshi (designer de personagens histórico da série, mostrando dez versões do Deku em sua jornada) e ainda anunciaram que o canal oficial da Toho Animation no YouTube vai disponibilizar episódios gratuitos das temporadas anteriores entre abril e agosto.
Marketing inteligente, sem dúvida. Mas tem outra leitura possível: a Bones e a Toho querem que esse episódio funcione como porta de entrada para o que vem depois. E o que vem depois pode ser bastante coisa. As celebrações do décimo aniversário foram descritas no anúncio oficial como “apenas o começo do que está planejado para o ano de aniversário”. Tradução livre: tem mais coisa engatilhada, e o “More” é o pontapé.
O que esperar do trailer e da animação
O trailer mais recente, divulgado em 25 de abril, tem aquela vibe nostálgica que parece projetada cirurgicamente para mexer com fã antigo. Imagens dos personagens crescidos, pedaços de reencontros, ambientes que remetem à U.A. mas com cara diferente, mais madura. Não há revelações grandes nas cenas, mas dá para ver que o estúdio de animação Toho tomou cuidado com a estética. A direção de arte parece ter envelhecido junto com os personagens, num registro mais contido, menos explosivo do que os arcos finais da temporada 8.
Faz sentido. Adaptar um capítulo de epílogo é completamente diferente de adaptar uma luta. O ritmo precisa ser outro. Não dá pra entregar essa história com o mesmo dinamismo de uma sequência onde o Deku está soltando 100% do One For All. Aqui é sobre olhares, conversas, pequenos gestos. É sobre os personagens entenderem em quem se tornaram. Se a equipe tiver mantido essa sensibilidade na produção, o resultado pode ser delicado de um jeito que My Hero Academia raramente foi.
A duração do especial ainda não foi confirmada com precisão por todas as fontes, mas está sendo tratado como episódio único, não como mini-arco. Conteúdo enxuto, foco no essencial. Para quem nunca leu o Capítulo 431, isso significa que cada minuto vai contar. Para quem já leu, é hora de ver se a animação consegue dar peso emocional a cenas que no papel passam rápido.
Onde assistir e o pacote de aniversário ao redor
A Crunchyroll vai transmitir o “More” mundialmente fora da Ásia, no mesmo dia da estreia japonesa, 2 de maio. Estreia em horário acessível para o ocidente — pelo fuso, dá para acompanhar quase em tempo real, o que é ótimo para evitar os spoilers que com certeza vão pipocar nas redes sociais minutos depois da transmissão. E olha, evitar spoiler de algo desse porte numa internet de 2026 é tarefa para verdadeiros samurais digitais.
Em paralelo ao episódio, o pacote do décimo aniversário inclui uma turnê de concertos chamada My Hero Academia in Concert, que parte para os Estados Unidos em setembro com 35 paradas pelo país, executando músicas das oito temporadas ao vivo. Não chega ao Brasil ainda, infelizmente, mas é o tipo de evento que costuma virar tour mundial quando dá certo, então quem é fã pode começar a torcer.
Tem também My Hero Academia: Vigilantes Temporada 2, que rodou entre janeiro e março deste ano e amarrou bem o spinoff prequel para quem quer entender melhor o universo. Uma terceira temporada de Vigilantes ainda não foi anunciada, mas o material original do mangá tem fôlego se a Bones quiser. E volta e meia surge o boato de que Horikoshi pode soltar uma série derivada nova, talvez focada em outra geração de heróis. Por enquanto, é só boato. Mas é daqueles boatos persistentes que merecem atenção.
Vale a expectativa toda?
Olhando friamente, sim. Vale.
My Hero Academia foi, durante uma década, um dos pilares do shounen moderno. Trouxe uma geração inteira para o anime, popularizou o subgênero de heróis num cenário dominado por outros formatos, criou personagens que viraram referência cultural — Bakugo gritando virou meme universal, All Might é All Might, e Deku se tornou aquela figura de protagonista determinado que muita gente passou a usar como exemplo. Encerrar tudo isso com um episódio especial bem feito não é só fan service. É justiça narrativa.
Existe o risco do “More” decepcionar, claro. O capítulo do mangá já dividiu opiniões, a animação pode não acertar o tom, o ritmo pode ficar estranho. São possibilidades reais. Mas as escolhas anunciadas até agora — diretor consagrado, designer de personagens histórico, conexão com o aniversário, lançamento global simultâneo — sugerem que a produção entende o tamanho do compromisso. E quando a Bones leva a sério, costuma entregar.
Para quem nunca viu My Hero Academia, esse não é o ponto de entrada. Sério. Vai começar pelo episódio 1 da temporada 1, faça a jornada inteira, e só depois assista ao “More”. O peso emocional do epílogo só funciona se você caminhou junto com aqueles personagens. Para quem já está lá há anos, o dia 2 de maio merece um espaço na agenda. De preferência sem distrações, com fone de ouvido bom e talvez uns lenços de papel por perto, vai que.
A grande pergunta que sobra é o que vem depois disso. O comitê deixou claro que mais projetos serão anunciados ao longo de 2026. Será que veremos uma nova obra de Horikoshi ambientada nesse mesmo universo? Um filme contando uma história paralela? Algum spinoff focado em personagens secundários que ficaram com pontas soltas? A franquia tem munição para décadas, se quiser. E a verdade é simples: enquanto existir gente disposta a chorar reassistindo o discurso do All Might pro Deku no episódio 1, vai existir mercado para mais My Hero Academia.
Por enquanto, vamos ao que temos. Sábado, 2 de maio. Crunchyroll. Episódio “More”. Oito anos depois. Plus Ultra uma última vez.

